03 junho, 2014

Aprendendo a consciência corporal - introdução. Meu joelho, coluna, organismo e as enrascadas que me meti por falta de conhecimento

Da Vinci

Todo mundo que já morou fora do país sabe a depressão que nos bate quando voltamos, principalmente se seu plano era ficar mais tempo e teve de voltar por forças maiores. Ao voltar para a casa dos meus pais prometi que, no mínimo, vou aprender tudo o necessário para poder me cuidar antes de me aventurar novamente. 

Agora conto com a ajuda de um psicoterapeuta transpessoal. Ele é médico, especializado em psiquiatria, terapias holísticas e muitas outras especializações voltadas para o ser por inteiro. Passaram-se 2 meses só pra minha ficha começar a cair do quanto eu andava me prejudicando (fisicamente), me fechando cada vez mais e mantendo o ciclo vítima-mártir em funcionamento. Na última consulta antes das férias do terapeuta, eu fui tão confrontada psicologicamente (é incrível o poder que os bons terapeutas têm de lhe fazer se enxergar)  e notei que minha musculatura se contraia tanto que a dor era horrível desde o ombro até a minha mão esquerda. Poxa, além da coluna, joelho, ouvidos, agora é o braço também? O que está acontecendo? eu pensava. Eu não me lembro como, mas lembro que ele passou a me acalmar e me mostrar o quanto eu seguro e finjo que nada está acontecendo enquanto me debato internamente, por simplesmente,  não querer enxergar a saída. 

Como meu braço doía! Já em casa, peguei o livro que ele me indicou como "tarefinha" e entendi o quanto me agrido internamente. Li o capítulo em que descrevia uma pessoa com fibromialgia e as causas psicológicas por trás disso. Momento vergonha alheia, pois naquela mesma semana eu havia reencontrado uma amiga de infância que me descreveu seus atuais montes de problemas de saúde (incluso fibromialgia) e confesso que algo me dizia, ao observá-la, qual era a fonte psicológica daquilo. (É, estamos sempre projetando nossos problemas nos outros.) É a coluna, o joelho e agora isso? Pelo menos, tudo faz sentido. Lembrei da Kusum Modak me dizendo em sua despedida: "quando se sentir bem, procure ajuda para cuidar do seu corpo. Você deveria saber que todo profissional do ramo hoteleiro deve ter um bom preparo físico." Apesar das dores terem voltado com tudo, eu realmente me sentia preparada para seguir. 

Pedi indicações e marquei uma consulta com um dos ortopedistas (Dr. Haruki Matsunaga) mais procurados por esportistas em Cuiabá, porque tinha gravado na mente o preparo físico que a Sra. Kusum me falou. Também passei a desconfiar que não era só secura, como me disseram a 1º vez na Índia, pois a dor na coluna voltou de tal maneira que eu sentia como um prego fincando do lado esquerdo (principalmente quando fico sentada por um mínimo de 1 hora), e o que trava é osso e não músculo. Após conversar e os exames de rotina, ele me pediu vários raio-X da coluna e do joelho, exames de sangue, urina e uma inspeção se há fatores reumatóides. "Você tem uma musculatura bem fraca, viu garota. Tem que aprender a se cuidar." Como eu não tenho plano de saúde, ele disse pra começarmos do básico e tentar descobrir a causa sem precisar apelar para exames mais detalhados (e caros p/ cacete). "Você já ouviu falar sobre fibromialgia?" ele perguntou. Eu ri... pois a lembrança do que descrevi acima me veio a mente. "Você apresenta muitos pontos. Leia a respeito e conversamos no seu retorno. Meu foco é descobrir a causa dessa sua hipersensibilidade no seus joelhos. Até logo." E nos despedimos.  

Uma semana depois lá estava eu munida de papelada e chapas na mão. "Ô garota de saúde perfeita!" ele disse após ticar todos os exames de sangue, etc. Você tem uma anomalia óssea na coluna, você sabia? ele me apontou o raio-x da coluna e passou a explicar o que era megapofise articulada na L5. Ali estava um defeitinho congênito, um osso que cresceu demais e se juntou ao vizinho sacro tornando-se um só. Bom, agora faz sentido a dor que sinto. "E seu joelho apresenta a síndrome patelo femural (voltamos a 1º etapa), olha como sua patela é torta e sobreposta na tíbia. Eu imagino agora o quanto doi, seus ossos se roçam constantemente."  Quem diria... E ele então passou a me explicar quando o questionei sobre a causa ser a secura dos ossos, que as mulheres tem organismo bem diferente dos homens, muito mais complexo. "O homem é como um painel de um carro 1.000 e a mulher como o painel de um avião. Uma infinidade de fatores está relacionado, principalmente de origem hormonal." Vi que ele não aceitava bem as ideias ayurvédicas, mas isso, como o Dr. Goutam (da Índia) me explicou, é uma eterna briga entre as classes científicas existentes. Mas ele concordava quanto a importância da lubrificação das juntas. Quando pedi mais informação para estudar, ele me indicou o livro Coluna Vertebral do Dr. José O. Kinoplich. 


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Então ele me encaminhou para a fisioterapia, indicou umas injeções intramusculares que me fizeram ficar dopada por 6 dias (eu tomava 1 por dia) e me proibiu fazer qualquer exercício sem o consentimento dele ou do fisioterapeuta. "Você tem a musculatura muito fraca, garota, tem que trabalhar nisso." De onde tiram que sou fraca assim eu me perguntava já indignada. "Quanto a fibromialgia, você já procurou ajuda psicológica?" Eu já estou fazendo terapia, respondi. "Que bom! Tu precisou dar essa volta no mundo pra descobrir que o problema é você mesmo... siga assim. E quero te ver daqui um mês." 

Como é que uma jovem de 30 anos tem essas dores de velho? Indiretamente me perguntou o fisioterapeuta na consulta. Pelo raio-x ele me mostrou o quanto minhas 2 patelas estão fora do eixo e sobrepostas. A vantagem desse defeitinho na coluna é te dar mais flexibilidade no quadril, mas em compensação trava com muita facilidade, o que causa dor. Pela maneira que eles falavam, notei que não é nada grave e questionei. Ele explicou que somos seres em constante evolução, há pouco tempo (na escala evolutiva) deixamos de ter rabo, presas, mas as alterações continuam. Todo mundo têm seus defeitos, uns mais graves, outros menos, mas grande parte pode ser resolvido com consciência corporal e exercícios constantes. A filosofia yogue nos diz isso há milhares de anos. Os gregos também. Diversas culturas dizem isso. 

Como você tem a musculatura fraca! ele exclamou ao checar minha atual situação. Já chega! De onde vocês estão tirando essa de musculatura fraca? esbravejei. E recebi ali uma lição de que aprendi o certo, mas usei de maneira errada. Caminhar, pedalar, (o que eu fazia todo dia), etc. são exercícios aeróbicos, excelentes para o coração e os pulmões, importantes no sistema circulatório do corpo, responsável por distribuir (e retirar) nutrientes necessários por todo o corpo. Mas não são exercícios de resistência muscular, nem muito eficientes para fortalecer musculatura. Veja um atleta, um ciclista, por exemplo. Ou você acha que ele só pedala? Além da alimentação quais outros cuidados ele toma para se preparar fisicamente? Exercícios de fortalecimento da musculatura. Simples. Uma pessoa saudável prática exercícios físicos regularmente e mistura aeróbico com resistência Não importa qual ela faz. Uma pessoa com defeitinhos, além dos exercícios regulares, deve aprender a trabalhar o melhor grupo muscular para aliviar a sobrecarga daquele defeito. No meu caso, fortalecer a musculatura (abdômen) para aliviar a pressão na coluna, e no joelho (pernas) pra forçar a patela entrar no eixo. Entendi que, no meu caso, não posso brincar em serviço ou fazer exercícios por conta própria. Se as dores estão do jeito que estão, é porque extrapolei os limites há tempos.  


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Mas e a alimentação nisso tudo? Vamos lembrar do básico. Carboidratos, proteínas e lipídios (gordura) são os responsáveis por gerar energia nas células, que constroem todo o corpo. As vitaminas e minerais atuam na capacidade de absorção desses nutrientes pelas células (vejam como tudo é importante!) O que precisamos em maior quantidade são os carboidratos, o famoso suplemento das nossas usinas celulares (as mitocôndrias) responsáveis por fabricar e liberar energia para todas as células.  Alguém já viu um carro funcionar sem combustível? (ou eletricidade ou alguma outra fonte alternativa de energia). Não somos diferentes, tudo no mundo necessita de energia para funcionar. Por isso que quando estamos mudando nossos hábitos alimentares, cortando o açúcar, as porcarias, etc, sentimos uma fraqueza pelo simples fato de ingerirmos menos energia do que estavamos habituados.

Em segundo lugar, necessitamos de proteínas, o alimento do músculo. Esse nutriente é responsável pelo desenvolvimento muscular e através deles (e do esqueleto) que nosso corpo se move, em busca de mais energia e perpetuação da vida. Uma enxurrada de pensamentos me deixou atordoada ao ouvir isso, principalmente quando ele me perguntou quanta proteína venho ingerindo diariamente. Eureka! Meu passado me diz que há uns 8 anos eu decidi parar de comer carne. Aprendi a substituir, mas não aprendi a quantidade. "Não me interessa sua fonte de proteína, desde que seja 125g diariamente" disse o fisioterapeuta. Eu não conseguia nem levantar a cabeça de envergonhada, eu não sei quanto mas sei que não comia essa quantidade diária, comia menos. Eu deveria ser presa por fazer mal a mim mesma e achar que estava certa! Eu já li inúmeros estudos falando sobre o vegetarianismo, que as pessoas quando seguem a fundo essa filosofia de vida, não mudam só a alimentação, mudam também o que fazem da vida. É algo automático, você passa a usar muito mais o trabalho intelectual do que o físico, pois o corpo vai pouco a pouco sendo preparado para isso. É uma parte da evolução. 


Photo by Daniel Berehulak

Na Índia aprendi que os veganos mesmo, são as pessoas das castas mais altas, os intelectuais, e muitos deles tem uma aparência mirrada. Entre eles é interessante observar os diferentes tipos de organismos: o magrelo por natureza, o na linha e o só de pensar engorda. Mas eles trabalham sua consciência corporal, em geral, através da yoga, se exercitam através da yoga (e/ou esportes), são magrelos mas não são fracos. A população indiana em geral não é vegetariana, eles apenas não comem carne de vaca (os hindus) ou não comem carne de porco (os muçulmanos), mas comem MUITA carne de carneiro e frango. É só dar uma voltinha no quarteirão para ver a quantidade de trabalho braçal daquele povo. Todos os restaurantes tem inúmeras opções vegetarianas, afinal, quem pode pagar um restaurante por lá são as classes mais abastadas. Lá também aprendi a origem do termo veganismo. Eu achava uma frescura essa diferenciação até porque no dicionário o significado de ambos é o mesmo. Mas na Índia, vegetarianismo significa que não houve a morte do animal para dar origem a um alimento. Leite, queijo e outros derivados não surgiram através da morte e continuam sendo uma excelente fonte de proteínas.       

É... além de eu me "secar" eu andei me enfraquecendo. E tudo isso sob a bandeira saudável. Cortar alimentos da dieta que me fazem mal foi bom por um lado (as dores estomacais e no fígado diminuíram drasticamente), mas não me atentei a quantidade que eu ingeria por dia. Eu como pouco, como um passarinho, deveria tomar mais cuidado ainda com a quantidade de cada nutriente. Pois vai chegar o dia que o nosso corpo cobra o preço das faltas e dos excessos. Se ainda tivermos tempo para corrigir, ótimo. Segundo a filosofia ayurvédica (e inúmeras outras) o melhor é prevenir, não tem escapatória. 

Que seu remédio seja seu alimento e seu alimento seja seu remédio. Hipócrates


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